Um Guia para os Exames Neurológicos Comuns
Outros testes
Após fazer o exame clínico, o neurologista pode suspeitar que tem EM, mas são necessárias evidências laboratoriais para apoiar os achados clínicos, permitindo desta forma que o neurologista faça um diagnóstico definitivo.
Se disponível também será feita uma Ressonância Magnética Nuclear (RMN).
Os seguintes testes podem ser executados:
Exame ao líquido céfalo-raquidiano (LCR)
O que é o líquido céfalo-raquidiano (LCR) e que aspecto tem?
O líquido céfalo-raquidiano (LCR) é um fluido produzido continuamente em certas regiões do cérebro chamados ventrículos cerebrais, e que circula livremente através do sistema ventricular para o espaço subaracnoideu, espaço este que fica entre o sistema nervoso central, composto pelo cérebro e pela medula espinal, e as meninges. O LCR é depois reabsorvido continuamente no seio sagital superior para o sangue venoso, calculando-se que se renove 6 vezes por dia. Em condições normais o LCR parece água, porque é límpido, incolor e inodoro. Em que doenças é que o LCR sofre alterações?
O LCR pode sofrer alterações - modificações da composição; aumento de pressão - em muitas doenças neurológicas, uma vez que envolve intimamente e banha as estruturas nervosas. Por exemplo, nas meningites bacterianas, o LCR está sob grande pressão e é turvo pelo aumento considerável de células e proteínas.
O estudo do LCR na esclerose múltipla é muito importante, constituindo, classicamente, um dos pilares em que assenta o diagnóstico da doença. Actualmente, e apesar do recurso aos exames de ressonância magnética, o estudo do LCR continua a ser fundamental, e até indispensável, nos doentes com surto único (formas monosintomáticas ou clinicamente isoladas), e nos casos de evolução primariamente progressiva. Quais as alterações do LCR na esclerose múltipla? São específicas?
Como a esclerose múltipla é uma doença de base imunológica, o LCR apresenta alterações inflamatórias, de entre as quais se destacam a estimulação de células chamadas plasmócitos que produzem anticorpos. Estes anticorpos são proteínas que pertencem ao grupo das imunoglobulinas. Quando a produção de anticorpos se faz de modo excessivo contra determinados antigénios, as imunoglobulinas apresentam um aspecto característico “fraccionado”, que se chama “bandas oligoclonais”. A existência de bandas oligoclonais apenas no LCR, isto é restrita ao espaço subaracnoideu e, portanto, ao próprio sistema nervoso, é o achado mais típico, “a marca”, para diagnóstico de doença inflamatória/desmielinizante.
No entanto, para visualizar convenientemente as bandas, o LCR deve ser submetido à técnica de separação mais sensível para o efeito, que se chama focagem isoeléctrica. Esta técnica foi introduzida em Portugal em 1999, no Laboratório de LCR do Serviço de Neurologia do Hospital de S. João, Porto, e foi rapidamente disponibilizada para muitos Hospitais do País. Na figura anexa podem observar-se bandas oligoclonais no LCR de um doente com esclerose múltipla estudado no referido Laboratório.
No entanto, não há alterações específicas de esclerose múltipla, nem no LCR nem em qualquer outro exame. De facto, não existe, até à data, nenhum marcador biológico específico desta doença. Neste sentido, é importante não esquecer que o diagnóstico da esclerose múltipla continua a ser essencialmente clínico!
O LCR colhe-se geralmente por punção lombar. Neste exame o neurologista introduz, em condições de assepsia, uma agulha esterilizada, descartável, e específica para o efeito, na região lombar do doente, através da qual o LCR sai, e é introduzido nos tubos de análise. O doente deve estar correctamente posicionado (deitado de lado com as pernas flectidas) e permanecer imóvel. Desde que cumpridas as normas correctas, é um exame rápido e praticamente indolor, que não requer anestesia nem provoca complicações.
Prof. Dr.ª Maria José Sá
Serviço de Neurologia, Hospital de S. João
Instituto de Anatomia, Faculdade de Medicina do Porto
Alameda Prof. Hernâni Monteiro
4200-319, Porto, Portugal

Potenciais evocados
Os potenciais evocados medem o tempo que o cérebro leva para receber e interpretar mensagens. Podem medir-se estímulos auditórios, visuais ou somato-sensoriais. Este procedimento, apesar de não-invasivo e indolor, mede a actividade eléctrica do cérebro através de eléctrodos que são colocados em certas zonas da sua cabeça. Esta técnica não é feita em todos os países e tornou-se menos importante desde a introdução da RMN.

