A sua alimentação e a EM
Esta secção oferece algumas linhas orientadoras para a manutenção de uma alimentação saudável, e refere alguns conselhos acerca da comida que deve consumir e a que deve evitar.
Comida saudável
Têm sido desenvolvidas pesquisas intensas para descobrir alguma ligação entre a alimentação e a progressão da EM. Até hoje, não existe nenhuma prova indiscutível de que um tipo particular de alimentação possa afectar a taxa de surtos, na forma por surtos, ou alterar a taxa de progressão, na forma secundária progressiva. No entanto, foram realizados estudos(1-3) que demonstraram alguns benefícios de duas classes de nutrientes(4), os ácidos gordos esenciais e os antioxidantes.
Tópicos nesta página
Ácidos gordos essenciais
Antioxidantes
Dietas restritivas
Alimentação na EM por surtos
Alimentação na EM secundária-progressiva
Disfagia
Ácidos gordos essenciais
Os ácidos gordos essenciais são as gorduras que o organismo necessita mas que não consegue produzir e portanto tem de as obter a partir da alimentação. São gorduras insaturadas o que significa que nem todas as suas ligações químicas estão completas. Formam uma parte importante da estrutura do tecido do cérebro e da fibra de mielina.
O ácido linoleico é o mais utilizado destes ácidos gordos essenciais e está presente em grandes quantidades nos óleos vegetais, como os de milho e soja e em algumas gorduras animais. É um ácido gordo essencial omega-6, sendo o 6 referente ao lugar na molécula onde existe a ligação insaturada. Os ácidos gordos omega-3 são outro tipo de ácidos gordos essenciais, que são encontrados nos peixes gordos e em nozes.
Existem evidências que estes ácidos gordos essenciais podem ser capazes de alterar a resposta inflamatória em doençaas auto-imunes tais como a EM.
Antioxidantes
Os processos químicos que produzem a energia que utilizamos dependem do oxigénio que respiramos. Como produtos intermédios, estes processos criam uma grande quantidade de compostos de oxigénio muito reactivos designados por radicais livres. Estes também são produzidos por exposição à luz solar e pela poluição urbana. Os radicais livres reagem com vários tecidos do organismo, incluindo a mielina, onde produzem lesões.
A nossa alimentação geralmente contém certas vitaminas e minerais, chamados antioxidantes, que eliminam estes radicais livres:
Vitamina E - lipossolúvel, encontrada na margarina, manteiga e fruta fresca
Vitamina C - hidrossolúvel, encontrada na fruta fresca e vegetais
Vitamina A (como beta-caroteno) - lipossolúvel, encontrada no fígado, fruta fresca e vegetais
Selénio - mineral essencial encontrado nos cereais, peixe, ovos, queijo e carne
Dietas restritivas
Por vezes refere-se que dietas diferentes que excluem diversos tipos de alimentos, tais como o glúten, podem ajudar os portadores de EM, mas nenhuma destas provou cientificamente ser benéfica. Antes pelo contrário, como muitos portadores de EM sofrem de uma deficiência de nutrientes, uma dieta restritiva pode ser prejudicial.
Alimentação na EM por surtos
A alimentação indicada para a EM por surtos é a mesma que é recomendada como normal para a população adulta saudável. O seu objectivo é aumentar os níveis de ácidos gordos essenciais, antioxidantes, ácido fólico e vitamina B12 mantendo a função intestinal saudável.
- Use margarinas e óleos poli-insaturados (ex. girassol).
- Coma peixes gordos regularmente, idealmente 2-3 vezes por semana.
- Use lacticínios com baixo teor de gordura, ex. leite magro ou meio-gordo.
- Escolha frango e carne magra.
- Coma cinco peças de fruta fresca e vegetais diariamente, incluindo legumes com folha verde.
- Evite salsichas, bacon, hambúrgueres e outras comidas (processadas) com um elevado conteúdo de gordura animal saturada.
- Evite bolos, chocolate e cremes que têm elevados conteúdos de gorduras e açúcar.
- Frite os alimentos em pouco óleo ou grelhe-os, asse-os, ou coza-os em vapor em vez de fritar (a comida) com muito óleo.
- Escolha pão integral ou cereais com farinha de trigo integral.
- Beba 8-10 copos de líquidos diariamente (1.5-2l).
- Evite doses elevadas de suplementos vitamínicos.
Alimentação na EM secundária-progressiva
As pessoas com EM secundária-progressiva necessitam de adaptar a alimentação às suas necessidades individuais. O ganho de peso pode ser um problema para certas pessoas devido à menor actividade como resultado da mobilidade reduzida, fadiga e, talvez, depressão. O excesso de peso pode acarretar problemas com a mobilidade e aumentar o risco de outras doenças tais como a diabetes e doenças cardiovasculares. Uma alimentação cuidadosamente controlada não é geralmente apropriada para pessoas com EM secundária-progressiva mas simples medidas que podem ajudar serão a utilização de lacticínios de baixo teor de gordura, bebidas de baixo conteúdo calórico e alimentos convenientes, bem como reduzir a ingestão de álcool se necessário.
Na outra ponta do espectro, muitas pessoas com EM secundária-progressiva perdem peso e ficam mal nutridas. Isto pode, por si só, produzir perda de massa muscular, espasmos, fadiga, redução da função mental, redução da resposta imunitária à infecção e anemia. Existem muitas razões pelas quais se podem desenvolver a perca de peso e a má nutrição:
- Mobilidade reduzida, visão diminuída e a fadiga criam problemas nas compras e na cozinha;
- Cuidados inapropriados;
- Problemas físicos com a alimentação, tais como o tremor;
- Fadiga no início da alimentação o que conduz à ingestão de pequenas refeições;
- Fraco apetite; a pessoa pode dizer que come mais do que o que come realmente. Pode ser o resultado de uma ingestão de líquidos inadequada;
- Dificuldades mentais - pode não reconhecer a perca de peso como um problema;
- Dificuldades em engolir.
Pode ser necessária ajuda profissional para alguns ou para todos estes problemas.
Um nutricionista, fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional também podem ajudar. O nutricionista pode sugerir:
- Refeições pequenas e frequentes;
- Uso liberal de margarina de girassol no pão e batatas;
- Refeições com elevadas quantidades de óleos vegetais tais como batatas fritas, nozes e manteiga de amendoim;
- Usar lacticínios gordos;
- Usar leite desnatado em pó para fortificar a comida;
- Usar suplementos bebíveis e preparações multivitamínicas.
Disfagia
A disfagia, ou dificuldade em engolir, acompanha geralmente os problemas de fala. Pode ser reconhecida pela tosse e pelo engasgar durante as refeições e pelas frequentes infecções pulmonares. Esta situação deve ser avaliada por um terapeuta da fala e tratada com uma dieta especial de comida moída, amassada e em puré, ou líquidos espessos, dependendo da gravidade da situação. Uma vez que estas comidas são suaves e desinteressantes, pode ocorrer perca de peso e podem ser necessários alimentos à base de leite e suplementos. Em casos extremos pode ser necessária alimentação através de uma sonda nasogástrica.
Texto de referência
Payne A. Nutrition and diet in the clinical management of multiple sclerosis. Journal of Human Nutrition and Dietetics 2001; 14: 349-357.
Referências
(1) Bates D, Cartlidge NEF et al. A double-blind controlled trial of long chain n-3 polyunsaturated fatty acids in the treatment of multiple sclerosis. Journal of Neurology, Neurosurgery, and Psychiatry 1989;52:18-22.
(2) Dworkin RH, Bates D et al. Linoleic acid and multiple sclerosis: a reanalysis of three double-blind trials. Neurology 1984;34:1441-1445.
(3) Warren G, McKendrick M, Peet M. The role of essential fatty acids in chronic fatigue syndrome. A case-controlled study of red-cell membrane essential fatty acids (EFA) and a placebo-controlled treatment study with high dose of EFA. Acta Neurologica Scandinavica 1999;99(2):112-116.
(4) Payne A. Nutrition and diet in the clinical management of multiple sclerosis. Journal of Human Nutrition and Dietetics 2001; 14: 349-357.

