Terapêuticas modificadoras da doença
Existem actualmente 3 tipos de terapêuticas disponíveis que demonstraram claramente que alteram a evolução clínica de certas formas de EM. São elas o interferão beta-1b, o interferão beta-1a e o acetato de glatirâmero. Os interferões são hormonas derivadas das naturais e estão envolvidos no controlo do sistema imunitário do corpo enquanto que o acetato de glatirâmero é uma mistura de cadeias curtas de aminoácidos (os blocos construtores das proteínas) que modulam a resposta imunitária numa maneira ainda por definir.
Cada um destes demonstrou eficácia na prevenção dos surtos e alguns demonstraram capacidade de atrasar a progressão da doença, incluindo aumentar o tempo até à incapacidade. De seguida dá-se uma descrição curta dos resultados dos ensaios clínicos mais importantes para cada um destes produtos. A EDSS é uma medida da incapacidade que é utilizada em todos estes ensaios e descrita noutra página deste site. (link) A RMN é uma técnica imagiológica do cérebro que é utilizada para visualizar a lesão no sistema nervoso pela EM, que também é descrita noutro lado.
Comparação das terapêuticas da EM
Devido à variedade dos factores na forma como os ensaios foram conduzidos, não é possível comparar com precisão a eficácia das terapêuticas ao olhar simplesmente para os seus resultados. Em vez disso, é necessário usar ensaios comparativos onde duas terapêuticas modificadoras da doença são utilizadas lado a lado.
Um ensaio independente comparou o interferão beta-1b (8 MIU injectado por via subcutânea (sc., por baixo da pele) em dias alternados (dia sim, dia não) com o interferão beta-1a 6 MIU injectado por via intramuscular (i.m., no músculo) uma vez por semana(2).
Os resultados após 2 anos foram a favor da maior eficácia do interferão beta-1b em dias alternados. No que se refere ao controlo de surtos, progressão de EDSS e redução das lesões na RMN, o interferão beta 1b em dias alternados foi superior ao interferão beta-1a uma vez por semana.
Os investigadores foram da opinião que uma dose semanal superior e uma maior frequência de administração do interferão beta-1b, provavelmente agindo em conjunto, foram responsáveis pela superior eficácia(2).
Os estudos laboratoriais demonstraram que os interferões beta exercem os seguintes efeitos dose-dependentes (ou seja, quanto maior a dose, maior o efeito):
- O interferão beta inibe o mecanismo pelo qual as células-T são capazes de ultrapassar a barreira hemato-encefálica e ganhar acesso ao sistema nervoso central
- O interferão beta reduz a proliferação de células-T e aumenta a produção de citoquinas que suprimem a resposta imunitária
- O interferão beta pode suprimir a enzima que produz óxido nítrico que está envolvido na lesão das células nervosas
- O interferão beta estimula a libertação do factor de crescimento dos nervos
Em modelos animais de EM, o interferão beta também demonstrou a capacidade de suprimir a doença, sendo este efeito dose-dependente.
Em voluntários saudáveis, os marcadores sanguíneos do efeito do interferão beta aumentam proporcionalmente à dose administrada. Não é importante se a dose é administrada por via sc. ou im. O que é importante é qual a frequência de administração da dose, porque mesmo com doses elevadas, o efeito dura no máximo 5 dias(4).
Os ensaios clínicos demonstraram que quanto maior a dose de interferão beta, maior o efeito, mas isto pode dever-se, pelo menos parcialmente, à maior frequência de administração. Apesar de as doses superiores causarem mais efeitos adversos, tais como arrepios, febre e reacções no local de injecção, foi demonstrado que estas podem ser controladas com medicamentos como o Paracetamol ou o Ibuprofeno.(5)
Referências
(1) Goodin DS, Frohman EM et al. Disease modifying therapies in multiople sclerosis. Report of the Therapeutics and TechnologyAssessment Subcommittee of the American Academy of Neurtology and the MS Council for Clinical Practice Guidelines. Neurology 2002;58:169-178.
(2) Durelli L et al. and the Independent Comparison of Interferon (INCOMIN) Trial Study Group. Every-other-day interferon beta-1b versus once-weekly interferon beta-1a for multiple sclerosis: results of a 2-year prospective randomised multicentre study (INCOMIN). The Lancet 2002;359:1453-1460.
(3) EVIDENCE Study Group. Results of comparative efficacy trial using two formulations of interferon beta-1a in RRMS. Journal of Neurological Science 2001;187 (Suppl.1):S436.
(4) Stuerzebecher S, Maibauer R et al. Pharmacodynamic comparison of single doses of IFN beta-1a and IFN beta-1b in healthy volunteers. J Interferon Cytokine Res 1999;19:1257-1264.
(5) Goodin DS. Interferon-ß Therapy in Multiple Sclerosis. Evidence for a Clinically Relevant Dose Response. Drugs 2001;61(12):1693-1703.

